O grande mérito de Mortina é usar o universo clássico do assustador (zumbi, mansão, noite, Halloween) para falar de algo bem cotidiano na infância: o desejo de pertencer. O livro trabalha com um humor visual e narrativo que costuma encantar porque faz a criança perceber, quase sem esforço, que “o diferente” pode ser divertido, gentil e até admirável. É um tipo de história que, em vez de alimentar medo, costuma domar o medo com carinho e riso.
Como experiência de leitura, ele funciona por três motivos bem claros. Primeiro, por ter uma protagonista com um objetivo imediato que qualquer criança entende: fazer amigos. Segundo, por criar um cenário marcante (o Palacete Decrépito e a tia excêntrica) que prende sem exigir grandes explicações. E terceiro, por transformar o Dia das Bruxas numa metáfora perfeita: quando todo mundo está fantasiado, fica mais fácil experimentar quem você é — e isso conversa muito bem com a fase em que a criança está testando identidade, coragem e autonomia.
Para pais, ele é especialmente bom para abrir conversa sobre aceitação (ser diferente não é um defeito), amizade (aproximação com cautela, respeito) e até sobre regras e proteção: a tia tenta proteger, mas o excesso de controle também isola. Sem moralismo, a história permite aquela pergunta que vale ouro na hora de dormir: “o que você faria no lugar da Mortina?”




