O grande mérito de Up é que ele funciona em duas camadas ao mesmo tempo. Para a criança, é uma aventura imaginativa com situações engraçadas, personagens carismáticos e uma jornada cheia de acontecimentos. Para o adulto, é um filme sobre luto, teimosia, afeto e recomeço, contado com uma confiança rara: a de que crianças conseguem lidar com sentimentos complexos quando a história é bem conduzida.
Carl é um protagonista incomum para uma animação infantil, e isso é parte do charme. Ele não é “fofinho” nem “bonzinho” no início. Ele é fechado, impaciente, resistente ao mundo. E é justamente por isso que a dinâmica com Russell funciona tão bem: o menino é insistente, mas não é apenas alívio cômico. Ele representa uma necessidade real de vínculo, de ser visto, de ter alguém por perto. Up acerta quando transforma essa dupla em uma espécie de família improvisada, sem forçar discurso, sem virar sermão.
Em termos de conteúdo para pais, é um filme que abre portas para conversas simples e valiosas. O início pode gerar perguntas sobre “sumir”, “morrer”, “ficar sozinho”, e o restante do filme fala de escolhas: o que a gente segura por medo, o que a gente precisa deixar ir, e como a vida continua mesmo quando o plano original muda. É um filme bonito para assistir junto, porque muitas crianças entendem a aventura, mas precisam do adulto para nomear as emoções que aparecem no caminho.
No fim, Up: Altas Aventuras é daqueles raros filmes que divertem sem subestimar a criança e emocionam sem apelar. Se você está montando uma lista de animações que valem a pena “de verdade” em família, ele entra fácil. Só não trate como um desenho qualquer para colocar de fundo: o começo pede presença, e, quando a criança está na idade certa, a experiência vira daquelas que ficam na memória.


